terça-feira, 22 de março de 2011

Motel Absinthe


Finalmente ela acorda. E contempla o lugar asqueroso onde está. Garrafas espalhadas, cinzas pelo chão e aquele cheiro de ralo de banheiro publico naquele minúsculo quarto de motel de beira de estrada:
-Ai minha cabeça... Mas, que merda de lugar é esse?! Como diabos eu vim parar nesse chiqueiro?!...
Levanta-se e vai ate a porta e tenta abri-la:
- Que porra! Ta trancada... Como eu vou sair desse poço heim...
O que ela pode fazer além gritar e socar a maldita porta...
- Socorrooo! Alguém me ajudee! Abre essa merdaaa!
Ninguém aparece.                                                                                                   
- Porra, eu tou presa aqui...
Procura sua bolsa no armário, e acende um cigarro. De repente a porta se abre devagar, é uma mulher alta, cabelos ruivos como fogo, e com grandes olhos cor de mel; vestida num sobretudo alvíssimo, limpo demais para estar ali...
-Oi Lu... Acordou cedo hoje...
-Ei! Quem é você? Como sabe meu nome? Me tira desse chiqueiro agoraa!
-Seja feita a sua vontade...
E a mulher ruiva some, entre os milésimos de segundos em que Lucy pisca os olhos, o que não a assusta muito:
“Hmm... Pelo menos deixou a porta aberta... Vou vazar daqui!” Pensa ela.
Então ela sai do quarto e vaga pelos corredores procurando a saída. E encontra um homem, magro, com longos cabelos castanhos, barbado e muito mal vestido.
- Ei você! - Grita Lucy
O homem vira-se pra ela.
-Por onde é q eu saio daqui? Pergunta Lucy
O homem ri.
- Fala logo cara! Eu preciso sair desse lodo!
E o homem finalmente fala com ela.
-Quem é você? Pergunta.
- Lucy Abbot.
Ela até pensa em estender a mão, mas o homem era sujo demais pra esse tipo de cumprimento.
-Hmm. Acho que já te vi por aqui antes...
-Haha! Impossível! Eu nunca vi esse pardieiro na minha vida, e não sou o tipo de mulher que vem pra cá.
-Ok. Siga em frente, sempre em frente, não vire ou volte. Você ate pode encontrar a porta de saída, mas...
 -Mas o que?! Isso vai me tirar daqui?!     
E o homem voltou a perambular pelos corredores e sumiu na penumbra.
-Eu heim, que doido... Diz Lucy.
Mas apesar “ótima” impressão ela faz o que o homem mandou. Ela caminhou a frente ate ficar escuro demais pra que pudesse ver algo, e começou a tatear a parede em busca de algum interruptor ou qualquer coisa que iluminasse, nada. E a escuridão apenas se prolongava a cada passo que ela dava. Pensou em voltar, ou achar outro caminho, mas lembrou-se do que o homem sujo lhe disse: ”Sempre em frente, não vire ou volte”.
- Como diabos eu vou seguir em frente se eu não vejo nada? Que merda...
E a mulher ruiva aparece novamente.
- Já chega, não? Diz ela.
-Ai que susto! Já tava na hora mesmo! Eu quero sair desse lugar! Anda! Me tira daqui agora!
-NÃO TEM SAIDA, e você sabe disso. Não existe mais nada para alem dos arredores da sua cela... Diz ela sorrindo.
-Cela? Ah meu Deus eu sabia! Eu fui seqüestrada né? Porra mas vocês são muito burros mesmo! Eu não tenho grana e nem família rica! Qual é a de vocês heim? Trafico de órgãos?
- Hahahaha! Sabe... Ate que eu gosto do seu senso de humor! Vai dizer que você não lembra? Essa historia é velha... E você não vai conseguir escapar com só isso.
-Que historia sua louca?!
-Tudo bem. Se você quer continuar... Seja feita a sua vontade...
E a misteriosa mulher ruiva some de novo, e dessa vez, Lucy nem precisou piscar.
-Ah que se foda! Vou voltar e tomar outra direção.
Lucy vira-se e ao primeiro passo a frente na volta tudo se acende, mas dessa vez ela realmente se assusta...
-Nossa... Diz Lucy arregalando os olhos.
O caminho de volta não parece o que ela tomou pela primeira vez, talvez porque estivesse tudo claro agora. Enquanto Lucy caminha, ela vê objetos que não viu antes: os típicos quadros de motéis baratos na parede, que pareciam bastante chamuscados.
-Eu heim... Que espécie de gente pendura essas aberrações na parede? Esse lugar ta cada vez pior!
E ela continua seguindo, na esperança de achar algum caminho que a tire dali. E quanto mais ela segue, coisas novas aparecem, dessa vez: os famigerados quartos. Ela passa pelo primeiro e ouve um barulho parecido com um choro de criança, decide voltar lá e ver o que estava acontecendo, quando ela abre a porta, se depara com uma cena tão abominável quanto aquele motel. Um homem, gordo e careca, nu, em cima de uma linda garotinha, de aparentemente 13 anos, que tinha suas roupas rasgadas, provavelmente por aquele monstro. Lu nunca teve um coração muito mole, mas dessa vez ela realmente sentiu pena da criança...
-Ei! Seu porco! Grita ela, entrando no quarto com sangue nos olhos.
-Largue-a agora! Sai de cima dela sua rolha de poço!
O homem ri e continua o que estava fazendo. Ate que ela toma uma atitude, joga o primeiro objeto q viu pela frente na cabeça do homem, era um ferro de passar... E ele grita de dor e sai de cima da menina q finalmente fala alguma coisa:
-Ei moça! Faz o favor de não estragar meu programa?! Vaza daqui anda!
-Mas que p... Eu ouvi você chorar! Pensei que estivesse sendo estuprada! Explica-se Lucy
-Não, não, esse retardado não seria capaz de fazer isso, não que ele não quisesse! Hahahahaha! É um fetiche dele, ele gosta que eu chore, para parecer alguma violência...
Lucy se enoja com aquela situação, com aquele homem, e principal e inacreditavelmente, com aquela dita criança.
-Vocês são doentes...
-Pagando bem, que mal tem? Hahahaha! Responde a menina.
Lucy sai correndo dali, não queria ficar mais nem um minuto naquela cena porca. Continua andando, e vê um quarto com a porta aberta, decide não entrar, afinal não quer presenciar nenhum ato aterrador e desagradável novamente. Mas enquanto passava pôde ver uma mulher revirada na cama e um homem com uma seringa na mão. Ta bom, isso já era bem menos pior.
-Ah... Só drogas... Murmura ela.
E continua andando. Ate q finalmente ouve algo do que queria ouvir, uma voz, muito familiar.
-Não acredito... Parece a voz do... Simon!
E começa a gritar seu nome batendo em todas as portas que vê, tentando seguir sua voz. Ate que acha a porta de quarto entreaberta. Sim, a voz saia dali! Mas ela ouve uma palavra: “largá-la”. E neste momento passam milhares de pensamentos e lembranças em sua cabeça numa velocidade impressionante. Resolve ter calma, e pára para ouvir toda a conversa. De repente uma voz feminina diz:
-Eu sei meu bem, mais você tem que fazer isso logo! Se ela desconfiar de qualquer coisa... Nosso plano está perdido.
Lucy abismada pensa: “Meu bem? NÃO! Ela não pode estar falando com o MEU Simon.”
-Tenha calma Angie. Ela não vai nem suspeitar. E daqui a alguns dias estaremos em Londres e vamos pra lá no jatinho dela, ficaremos na casa de ferias dela, gastando toda grana dela! Hahaha! - Disse Simon com um largo sorriso no rosto.
-Ok meu amor... Mal posso esperar por isso! Hahahaha!
“Não, não pode ser ele... Esse não é o meu Simon, deve ser outro!” Pensa Lucy atordoada com as revelações. E resolve abrir a porta pra ter certeza que era mesmo ele. E quando entra no quarto ela o vê, beijando uma mulher... Ruiva...
-Sua desgraçada! Era você o tempo todo! Sua filha da puta!
-Calma Lucy. Nada disso é real. Quer dizer, não é mais... Diz Angie.
-Lucy... Fala Simon.
-Simon seu miserável! Então era isso né? Você esteve comigo pra me roubar e fugir com essa prostituta barata! Como você pôde? Como pôde me trocar por essa vagabunda! Eu te dei tudo que você quis! Realizei seus sonhos mais selvagens! Você nunca foi nada sem mim... Eu criei você seu verme! Grita Lucy.
-Como se atreve? Ele é e sempre foi parte de mim! Até antes de te conhecer... Porque ele me ama, como nunca ninguém te amou naquela sua vidinha de plástico...
-Meu Deus... Porque esta acontecendo isso comigo?! Chora Lucy.
E Angie e Simon se assustam com a reação aparentemente não violenta de Lucy.
-Não entendo... Você não vai fazer nada conosco? Não vai queimar o motel? Pergunta Angie.
-Queimar o motel?! Bem que eu tenho vontade! Mais não, não vou fazer nada disso vadia... Responde Lucy
“Que idéia... Ate que seria bem feito” Pensa ela.
E finalmente Simon se manifesta:
-Como não? Você já fez isso antes! Apenas... Ire-se! Estamos todos mortos mesmo!
-Hã? Mortos? Seu porco desvairado do que você ta falando?
-Não acredito... Angie meu amor, é toda sua... Diz ele.
-Há dois anos você desconfiou das saídas do Simon, contratou um detetive e descobriu sobre nos dois, mas você queria vingança e planejou tudo, nos seguiu ate esse motel e esperou que entrássemos no quarto, nesse aqui mesmo, e nos trancou aqui dentro, foi ate seu carro, pegou um galão de gasolina e o isqueiro preferido do Simon, ate que eu gostei desse toque especial, você tem talento garota! Hahaha!Voltando ao assunto, você conseguiu fechar todo o motel e queimou tudo... E todos. O que você não sabia era do nosso verdadeiro plano, você pensou que nos éramos apenas... Amantes! Hahahaha! E desde então estamos todos presos a você, e revivendo nossas mortes dia após dia, trabalhando duro para animar o seu inferno. Sorri Angie e pisca para Lucy, o que a deixa furiosa.
-A cada novo dia você tem uma chance de mudar, de se arrepender, mas você sempre repete o que fez. Boa garotaa! Sempre superando nossas expectativas! Hahaha!  Termina ela, rindo alto.
-Não! Sua cadela! Eu não faria isso! Bem que tive vontade, mas não mataria o resto dessas pessoas! Tudo bem que são como baratas... Ninguém se importaria se eu desinfetasse o lugar, mas... Não sujaria minhas mãos com isso! Responde Lucy irritada.
E do nada surge um homem misterioso dentro do quarto.
-Ate que enfim... Tivemos progresso né Lu? Diz aquele homem magro e sujo que Lucy encontrara antes.
-Você de novo? Ah vai dizer que eu te matei também e você veio ajudar a dar vida a esse lugar podre? Diz Lucy
-Você me matou sim, se é o que quer saber. Mas não, eu definitivamente não sou um deles... Dia após dia eu tenho te acompanhado, estive esperando por esse dia a muito tempo. Diz o homem.
-Ainda não desistiu Vehuel? Não vê que ela é nossa agora? Não me diga que ela se redimiu? Hahahaha! Olhe pra ela, orgulhosa, egoísta, arrogante... Falta pouco pra ela virar um de nos! Hahahaha! Diz Angie.
-NÃO!  Responde Vehuel irado.
E o quarto todo treme como se tivesse acontecendo um terremoto realmente forte ali. Todos os pequenos objetos caem de suas bases e um vento muito violento entra abrindo a janela e a porta e varrendo todas as coisas leves que poderiam ser arrastadas. E Angie ri alto, mas muito alto mesmo.
-Tem certeza? Então pra que todo esse nervosismo? Hahahaha! Diz ela.
-Hã? De que diabos vocês estão falando? Eu não vou virar nada sua cadela! Grita Lucy.
-Acertou! De novo! Hahaha! Você é muito boa, garota! Responde Angie, gargalhando pra disfarçar o nervosismo.
-Ela é não é? Não foi a toa que a escolhemos... Hahahahaha! Intromete-se Simon.
-Chega... Vamos embora Lucy... Interrompe Vehuel.
-Espere ai você também! O que esta acontecendo? Pra onde você vai me levar? Pode começando falar agora! Brada Lucy novamente.
-Você ainda não lembrou? Não percebeu nada? Sinto muito... Ou você vem comigo agora, ou fica...
Lucy refletiu que tudo que ela queria era sair daquele inferno, não queria explicações, ou gentilezas, apenas sair dali. Sim, ela teria que confiar naquele estranho, e por incrível que parecesse, Simon e Angie tinham medo dele... “Não existiram palavras mais certas: Inimigo do meu inimigo é meu amigo” Pensou ela.
Enquanto isso Angie e Simon não continham seu nervosismo esperando pela resposta de Lucy, não tinham mais tanta certeza se ela ainda estava tão irada como antes, todas às vezes ela escolheu ficar, todas às vezes ela quis provocar dor aos seus inimigos sem se importar se estava machucando outras pessoas, não tão inocentes assim, mas agora... Eles tinham serias duvidas...
-Tudo bem, eu vou... Lucy da à sentença final, acabando com qualquer expectativa otimista daquela dupla dinâmica.
-NÃAAAAAAO! Largue-a! Ela é nossa!Volte pro lugar de onde veio seu desgraçado! Você não pode interferir aqui! A chance dela lá passou quando ela ainda estava viva! Nos demos oportunidade dela mudar, apresentamos todas as opções! E ela escolhia as certas o tempo todo! Grunhiu Angie
Não tinha mais saída, já era chegada à hora do golpe final... Era tudo ou nada... E rapidamente Angie pulou em Lucy, enquanto a agarrava com toda sua força, e Lucy gritava, não sabia por que doía tanto, era uma sensação tão abominável, como se sua felicidade acabasse ali por completo, como se não houvesse mais saída a não ser a desolação; e sentiu q tudo ficava escuro e podre dentro dela, não conseguia mais gritar, sua voz tinha acabado e não restava mais nem um fio de esperança...
Ate que Vehuel, que tinha sido apanhado astutamente por Simon antes da investida contra Lucy, para que não pudesse impedir, conseguiu reagir, desacordar Simon e evitar que Angie tomasse Lucy por completo, e com apenas um toque ele a deixou inconsciente...
Lucy se levanta, era como se tudo voltasse a ter cores, como se ela lembrasse que os pássaros ainda voam e os peixes ainda nadam, e que houvesse uma corda pra sair daquele poço.
-Muito obrigado! Lucy agradece a Vehuel abraçando o como se ele fosse a ultima esperança da sua paz.
-Não por isso... Vamos? Pergunta ele.
Lucy olha pra Simon e Angie, caídos no chão e todas as outras coisas quebradas no quarto, as janelas escancaradas pelo vento da voz de Vehuel, e na sua cabeça volta à tona a cena miserável do homem e da garotinha... Ela dá seu ultimo suspiro naquele quarto nojento, e finalmente responde:
-Claro!
E Vehuel a abraça e entre os milésimos de segundos em que Lucy pisca os olhos, tudo desaparece numa explosão de luz verde...
 

By Ewa Helter

3 comentários:

  1. Gostei da historia, apesar de meio doida, kkk, eu acho q descobri o q vc deixou oculto...

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  2. Adorei essa história... Nunca tinha visto nada igual, mto interessante e acho q tbm percebi o q estava oculto... espero q continue postando coisas interessantes como essa... Até mais...

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  3. obrigada pelo elogio e pela atencao!

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